um canto

caminho de pedras

às vezes

das grandes

outras tamb

em

cantos de

pedras roxas

sou

rochas pretas

que teimam

em

pesar

sobre

mim

a

pedra oc

a

sobre

carregar

 

bem

no meio

caminha

uma música

 

cante

i

levante

i

tangi

os cabelos

dos olhos

respire

i

eco

ei

so

ri

que me leve

algo me diz que sou penosa

gosto da depressão

do buraco pesado

da dor estúpida, cega , surda, histérica

eu me deixo discordar

me deixo levar

eu gosto mesmo é do leve
que me leve

não da leveza das flores
do campo
balançando ao sabor do vento
do outro

mas da leveza dos passos firmes
dos gestos rudes
dos toques quentes

da solidez da água
da queda de seus cursos
e da leve pressão que vem dos pontos
das reticências

Fragmentada

preciso me por de pé

é meu pretenso pôr-de-sol chamando

pra juntar meus pedaços que me estilhacei por aí

 

tenho pensado tanto em cortar fora meus mamilos

que até meus pés estalam

e meus olhos de vidro palpitam…

 

mas é que eu gosto de anoitecer

pra colar os sonhos

e ir-me embora voando pro meu céu de menina

 

mas é que eu gosto de chão

do andar sobre meu estilhaço

pisar meu pé

pisar meus calos

e de novo me colar

voltar a caminhar em retalhos

a trôpega silente

a calada

.

passo de alma rasa
raspada
minando sangue
transbordando lava
já fria e dura
já pedra

que mina e seca
de olhos rasos

que rolam da borda
que é rente ao fundo
que é raso

quiçá
que saro

do corpo da lama do lixo do rato do crack

Quem faz a cidade?
Quem se arrisca?
Quem faz os riscos das ruas
nas paredes, no chão, sem teto
o homem invisível
a plantinha pequena nascendo
na fenda da sarjeta
Que tem dono
Que dorme e acorda
Que fecha e abre
Acende, apaga
Vomita esgoto
Que joga e cata lixo
Dos jogos
De bola
De fora
De casa
Que é o teto do homem invisível
Da cidade de não se ver

De um corpo que se desprega

(ou síncope do pregar de mil pregos da Maria Pastora)

 

 

 

eu tava ali eu vi

imóvel

e me vi

me escuta!

era eu

me vi

me virei

imóvel!

vi a boca do tempo

rasgar

do lado

do meu

ouvido

bem

no meu olvido

virei!

imago

e móvel

e fim

vi vida

vi sim!

vício

viçoso

vudu!

mas vi era eu

vi era tu

me

salve a vir

 

Elã

E se parasse de tentar sempre ser?

Talvez pudesse parar pra sempre.

Poderia sempre sentir melhor.

Sempre posso.

 

Posso ir devagar

Sorrir devagar

Num divagar despreocupado

Sobre meu ritmo descompassado

De rimar incessante

O meu limbo engraçado

Meu nariz de palhaço

E meu fundo rasgado

Meu olho embaçado

O meu ombro caído

Meu parvo ruído

 

E se não me importasse de perder o brilho que não tenho?

Talvez seja essa a minha luz

Essa luz fosca de meus olhos

Interruptor de meus brilhos

Ou a fossa das minhas taras

Da minha chama brilhosa interrompida

Do meu ser ameixa descascada

Ou maquiagem descarada.

 

Talvez esse seja o jeito em mim.

De me localizar, enfim

De me focalizar pra mim

Em meio ofuscado

Meio confuso

Meio traçado

 

Talvez seja esse o meu fuso.

Seja esse o meu transe

E que seja o meu elance!

Esse de errar no esboço

Acertando na chance.

Toma lá! Dá Cá!

 

Certo dia, bateu, em mim, uma tal Saudade!

Bateu como um tapa forte na minha cara.

E na minha cara, voltaram cheiros sem nome, gestos sem dono e vozes sem som.

Bateu forte!

Eu cambaleei, sem enxergar de onde veio.

 

Então, abri os olhos e bateu o vento que passa.

Bateu forte!

A Saudade cambaleou e tropeçou de mim.

Eu a enxerguei de onde estava.

E na minha cara, a Saudade caída e confundida.

Então, fechei os olhos e bati em retirada.

 

E não bateu arrependimento.

Não bateu!

 

(10/10/2007)

Palmas

Pé de Palma

Na palma da mão

 

Pra arrancar os espinhos da fome

E espetar o prato onde come

A fome que dá palmada no Hôme

É dura

 

A Palma de pé

Dá palmada na mão

E na palma do pé

É palma que dá na mão

Ela é

 

É barriga que dói

É palmada de mão

É rinha de pé

É furo fundo

É com farinha

É faro fino

É prato seco

É goela abaixo

É pé de fruta

 

É fruta de Palma

É pé de fome bruta.

 

(“Palma, palma, palma, pé, pé, pé”)

 

Pecado na Capital

É o que ouço, leio, respiro e acordo o tempo todo: “Não peque! Não pode! Ouse! Use! Abuse! Faça! Fale! Atitude! Ação! Tração! Tesão! Corra! Corte o cabelo! Seja sexy! Seja magra! Seja! Esteja! Esteja em forma! Estilo! Estado! Estude! Estrada! Rua! Galeria! Arte! Cidade! Capital! Dinheiro! “Money”! Compre! Tenha! Tenha fé! Tenha tudo!”.
Tudo pode, preguiça não… Preguiça não é coisa que cabe nas ruas duma cidade-capital. É muito folgada e se espalha e se demora. As coisas precisam ser já e, daqui a pouco, elas já são ainda. Num piscar de olhos, o amanhã já virou ontem. Num piscar de olhos, meu despertador berra:

-“Melhor deixar pra espreguiçar amanhã! Você já espreguiçou ontem! Já perdeu cinco minutos! Num minuto, cê perde um contato! Num contato, cê ganha dinheiro! Contato é dinheiro! O tempo é catalisador! Ou você ou ele! É você contra o tempo, minha amiga! Catalisa! Anda logo! Corre! Anda rápido!

E lá vou eu, manca de sono, me equilibrando em sapatos, roupas e gestos que não queria usar. Ganhando tempo que eu queria matar. Matar o tempo direito, sabe? Esquartejar e jogar pela janela com relógio e tudo, com requintes de crueldade. E com muita, MUITA calma.

A gente só vive, deveras, quando mata o tempo. Mas não deve! Não há tempo pra isso, não! Deve manter o foco e evitar vertigens! Ver que se deve andar pra frente, nunca em círculos! Não se deve circular e passar de novo e ver. De verdade.

Assim é o ciclo. Não se pode girar e girar e girar e girar…até enjoar. Não há tempo pra enjoar! O vômito tem de ser precoce! Nada de vertigens e rodopios e desvarios e oscilações e frio na barriga e loucuras e tremor nas pernas e… e… e…

Iiiiiiih!

Enjoei! Deu abuso dessa rapidez! Vou ver se tô ali na esquina. Esticar e bater perna, espreguiçar, matar o tempo, circular, ir, voltar, dormir pra acordar…e se alguém buscar por mim, mandar e-mail, torpedo, sinal de fumaça ou telegrama estarei com “Rede Cheia” e em “Endereço não encontrado”.